26/08/2016 Vantagens e Desvantagens de Morar Sozinha

Faz um tempo que venho pensando sobre esse post, amadurecendo a ideia, observando o meu próprio dia-a-dia para colher informações e acho que, depois de seis meses morando sozinha, já tenho algum conhecimento a respeito.

Foram anos e anos jogando The Sims e criando aquela personagem independente, bem resolvida profissionalmente, que mora sozinha e tem algum emprego que a permite trabalhar de casa (o que eventualmente deixava minha personagem com sérias deficiências de socialização – o jogo sempre soube), mas não passava de um jogo e a vida nunca me deu a oportunidade de realizar esse sonho.

Até que um dia, depois de várias turbulências, separação, a doença do Toddy, meu diagnóstico de Transtorno de Ansiedade, todos os problemas que tive inicialmente nessa casa, eu estava sentada aqui na minha cama, fazendo nada (porque é algo que eu realmente gosto de fazer de vez em quando: vários nadas), quando me ocorreu: Ei! Eu moro sozinha! Finalmente eu moro sozinha! Não é casa própria, mas é a minha casa. O lugar onde eu moro, somente eu e meus cachorros. <3 E isso me deixou tão feliz, que logo comecei a pensar em todas as vantagens se estar morando sozinha.

Mas, como nada na vida é feito exclusivamente de vantagens, as desvantagens logo começaram a dar as caras também. Então, vamos falar um pouquinho sobre cada uma delas, até o momento. (V = Vantagem; D = Desvantagem)

V: Não precisar fechar a porta do banheiro! Ok… Às vezes você tem visita em casa, ou quer tomar banho e está frio demais, mas, em geral, não precisa se preocupar em ser surpreendida por algum desavisado abrindo a porta do banheiro enquanto está sentada na privada. Isso não vai acontecer, porque não tem mais ninguém na casa além de você. =)

D: Se perceber tarde demais que não tem papel higiênico, vai ter que usar a criatividade. E é bom torcer para que tenha papel higiênico em algum lugar da casa porque, se esqueceu de comprar, sinto muito. Sugestão: o chuveiro está logo ali. Tome um banho e vá comprar papel higiênico.

V: Não tem ninguém para regular a sua vida. Não importa se você comeu torrada com ovo mexido e katchup, se resolveu chegar em casa às 4h da manhã, ou se está pensando em deixar aquelas vasilhas sujas lá na pia até segunda ordem. Ninguém vai te dizer que está errado, ou te julgar por isso, e mesmo que alguém faça, essa pessoa definitivamente não tem direito algum de fazer, então você pode apenas ignorá-la. (Claro que algumas dessas opções não estão disponíveis quando se tem cachorros. Eles realmente reclamam se você passar mais tempo fora de casa do que está acostumada ;D)

D: Você vai estar realmente sozinha. Sabe aquele dia que se chateou pra caramba no trabalho, e tudo o que queria era poder desabafar com alguém e colocar isso pra fora? Bom… Nem sempre vai ter alguém ali para te ouvir, porque você mora sozinha e seus amigos não vão estar sempre disponíveis.

V: Suas coisas vão estar sempre onde você deixou. A menos que haja um fenômeno poltergeist na sua casa (ou que você tenha animais de estimação que moram dentro de casa), os objetos inanimados não costumam sair andando sozinhos por aí, como dava a entender quando morava com outras pessoas. Se você colocou o pente de cabelo em cima da pia do banheiro, ele vai estar lá quando você voltar! Especialmente dentro de armários e da geladeira, onde nem os animais costumam ter acesso, os objetos e comidas dificilmente sairão sem sua devida permissão.

D: Suas coisas vão estar sempre onde você deixou. Parece repetitivo, mas não é. Porque essa situação é uma faca de dois gumes, na verdade. É sempre um pouco desestressante poder culpar alguém pelo sumiço do seu alicate de cutícula, ou por terem usado o restinho do açúcar sem avisar. Mas, quando se mora sozinha, você não tem ninguém a quem culpar além de si mesma. Lide com isso. =/

V: Tempo para si mesma. Da mesma forma que temos dias em que queremos conversar, também temos dias que não queremos falar com ninguém. Nem “boa noite”, nem “bom dia”. Morando com outras pessoas, isso é praticamente impossível. Se você chega em casa chateada e se tranca em seu quarto sem falar nada com ninguém, sempre vai ter alguém batendo à porta para saber se está tudo bem, ou insistindo para que você pare de graça e vá jantar. Quando você mora sozinha, a certeza de que vai poder deitar na cama e se isolar do mundo lá fora é gratificante.

D: O fim dos pequenos favores. Nada de “Traz a toalha pra mim?”, ou o “Apaga a luz lá de fora?”, ou “Traz um copo de água?”. Esqueceu a toalha? Esqueceu a luz acesa? Está com sede? Se vira! Inclusive quando estiver doente. A comida não vai se preparar sozinha, o quintal não vai se limpar sozinho, os remédios não vão pular da prateleira e exigir que os cachorros os engulam.

Mas, apesar de todas as vantagens e desvantagens, morar sozinha é uma experiência muito boa, muito gratificante, porque se trata de conhecer melhor a si mesma, em todos os pequenos detalhes. Você gosta mesmo de colocar cebola e alho na comida, ou faz isso porque outras pessoas gostam? Você prefere o café forte, ou fraco? Qual seu aroma de sabonete preferido? Em qual lugar do quarto você prefere que fique a sua cama? E que tal pendurar aquele quadro na parede? ;)

Um dia ainda vou ter minha casa própria, para reformar e decorar como quiser, e poder colocar cada detalhezinho da minha personalidade nela. Mas, por enquanto, a experiência de morar sozinha está sendo ótima, e cada dia eu quero mais! \o/

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21/08/2016 Sobre privilégio e o dever de ficar calado

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Olá! Meu nome é Carla. Sou branca, heterossexual, cisgênero, estou dentro do que é considerado “peso ideal”, e segundo este teste aqui, pertenço à Classe Média Intermediária. Em outras palavras, sou uma pessoa privilegiada.

Privilegiada porque, pela minha cor de pele, ninguém fica espantado quando digo que sou formada em uma faculdade, nunca fui ofendida nem ameaçada por beijar em público, nunca tive conflito com meus próprios órgãos sexuais, as pessoas não me julgam quando eu sento numa lanchonete para comer um sanduíche cheio de maionese e batata frita, e não tenho que escolher entre me alimentar ou comprar remédio para os meus filhos.

A única coisa que me torna vitima de preconceito é o fato de eu ser mulher. Porque, sim. Quando digo que sou formada em Processamento de Dados, ou que trabalho com manutenção de computadores, frequentemente as pessoas me fazem “testes” para saber se entendo mesmo disso, porque parece muito absurdo que uma mulher possa saber trocar uma placa de vídeo, ou saber a diferença entre MBR e GPT.  Para o homem, basta mostrar que sabe um pouco sobre o assunto para ser considerado bom. A mulher precisa provar que sabe mais do que todos os homens, para ser considerada aceitável.

Mas, ainda assim, eu sou uma pessoa privilegiada. Se já é difícil para uma mulher branca de classe média convencer as pessoas de que entende de informática, imagina se eu fosse negra! E se ainda fosse pobre?

O que me diferencia de outros privilegiados, é que eu não sou cega. Eu sei que tenho vários privilégios em relação a outras pessoas e sei que isso é errado pra caramba! Mas uma coisa que eu não sei, é o que essas pessoas não-privilegiadas sofrem. Eu posso até imaginar, posso até presenciar e chorar por causa delas, mas depois eu vou voltar para o conforto do meu lar, vou encher meu estômago com comidas gostosas, receber amor dos meus cachorros (que estão todos bem alimentados e com as vacinas em dia) e apoio da minha família e dos meus amigos que me amam e me aceitam, jogar uns joguinhos aqui no meu computador e dormir na minha caminha macia e confortável.  Elas não. Eu vou chorar por elas, vou lutar ao lado delas, vou erguer bandeiras junto com elas, mas jamais serei elas. Então, eu não posso falar por elas, e não posso achar que sei mais dos problemas delas, do que elas mesmas. Porque esse, infelizmente, é um dos grandes erros dos privilegiados. Achar que têm condições de compreender melhor os problemas dos outros do que eles mesmos.

Não. Apenas parem, por favor.

É por isso que nós batemos sempre na mesma tecla: Quem sabe o que é racismo são pessoas não-brancas. Quem sabe o que é machismo são as mulheres. Quem sabe o que é homofobia são os homossexuais. Quem sabe o que é gordofobia são os gordos. Quem sabe o que é preconceito de classe são os pobres. E assim por diante.

Não é difícil, gente. Não é mesmo.  Nós precisamos aprender a nos calar quando o assunto não nos diz respeito. Isso é o básico, apenas o básico, para deixarmos de ser esse bando de babacas privilegiados que acham que sabem de tudo.

Vamos colocar nas nossas cabecinhas que, quando se trata de algo que nós não somos, ficar calado não é um direito, é um dever.

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