10/04/2016 Vamos conversar sobre amor próprio

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Sempre ouço falar que nós precisamos aprender a nos amar como somos, amar nossos corpos, nossos cabelos, nossas vozes, nosso jeito de ser. Principalmente no feminismo, isso é algo que nos é ensinado desde o início: “ame-se”.

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Mas não é uma tarefa fácil. Nunca estamos completamente satisfeitas com o que somos. Sempre tem aquele dia que nosso cabelo amanhece esquisito e não estamos com a menor vontade de arrumar, aí pensamos “queria que meu cabelo fosse de outro jeito”. Ou aqueles dias que vemos roupas lindas na vitrine de uma loja, mas não podemos comprar porque só tem tamanho M ou P, e até mesmo o G ficaria pequeno, e aí pensamos “queria ser mais magra”. E quando estamos jantando com amigos e familiares, que nos amam e, teoricamente, nos querem bem, e um deles acaba dizendo “Você devia fazer uma dieta, ou vai acabar ficando doente”?

Não é fácil se amar. Não é mesmo. Especialmente com toda a pressão social em cima de nós, nos dizendo que só podemos ser felizes se nos encaixarmos em padrões: Pernas e axilas sem pelos, barriga sequinha, cabelo liso e sedoso, seios firmes, pele lisa e uniforme, unhas bem feitas, etc., etc., etc.. Mulheres passam a vida inteira tentando se encaixar nesses padrões, ou se manter neles. Deixam de comer comidas gostosas porque engordam; deixam de mexer com terra porque estraga as unhas; deixam de ir à praia numa manhã ensolarada porque as pernas estão peludas e a depilação está marcada para dali dois dias; deixam de sair com os amigos porque se acham gordas demais para vestirem roupas bonitas; deixam de passar um tempo relaxando com a família porque precisam ir à academia… No final das contas, deixam de fazer tanta coisa, que acabam se perguntando “O que restou?”. E é esse ponto que precisamos enxergar.

Todas as pessoas passam por um momento da vida em que param e pensam “O que eu fiz até aqui?”. Pode acontecer quando se é ainda muito jovem, mas normalmente acontece quando começamos a envelhecer, ou quando acontece algo na nossa vida que muda nossa perspectiva sobre nós e o tempo: um acidente ao qual sobrevivemos, uma doença grave, a morte inesperada de alguém muito jovem. É aquele momento em que percebemos que padrões não significam nada, e passamos a dar foco para as coisas que realmente importam.

Faça um exercício mental. Imagine que acabou de descobri que te restam apenas quinze dias de vida. Você vai passar essas últimas semanas comendo tudo o que gosta, ou fazendo dieta para morrer magrinha? Vai sair com os amigos sem se importar com a roupa que está usando, ou vai ficar em casa porque aquele vestido não lhe caiu bem? Vai passar mais tempo com as pessoas que ama, ou vai se matricular na academia? Vai à praia, à piscina e à cachoeira, ou vai ficar esperando o dia da depilação primeiro?

Essa é a chave para amar a si mesmo. Porque, acredite ou não, você não sabe quanto tempo lhe resta. Pode ser um dia, uma semana, ou vinte anos. Não perca esse precioso tempo tentando se encaixar em padrões e satisfazer o julgamento dos outros. Use esse tempo para fazer as coisas que gosta, lutar pelos ideais em que acredita, cuidar de si mesma. E eu não digo para fazer dietas e ficar obcecada com médicos e exames. Apenas conheça seu corpo e seus limites. Aprenda o que te faz bem, e descarte o que te faz mal.

Ainda assim, não é fácil. Mas se você conseguir dar os primeiros passos, vai aos poucos descobrir o melhor amor do mundo: o amor próprio.

E é por isso que eu já não me sinto culpada quando como um pratão de macarronada, ou quando passo a noite inteira assistindo filmes, ao invés de fazer algum exercício físico, ou quando a barriga fica saliente sobre o cós da bermuda. A comida estava ótima e me deixou feliz, o filme era bom e me divertiu, a minha barriga saliente não me incomoda. Porque amor próprio é aquilo que acontece quando você começa a valorizar mais a si mesmo, e menos o que os outros pensam sobre você. ;)

Claro… Não vou comer aquela barra de chocolate hoje. Mas porque lactose não está me fazendo bem, e não porque chocolate engorda! Vou comer algum docinho de fruta no lugar. ;D

 

Texto originalmente publicado no meu Medium, que você pode conferir em (https://medium.com/@carlaalrac/vamos-conversar-sobre-amor-próprio-cd1ccc52b954)
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24/11/2015 Sobre mulheres “machistas”

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Ontem eu li uma postagem que me deixou muito triste. A Jessica, do Canal das Bee, informou que os seguidores do Bolsonaro estavam se unindo para denunciar a página no Facebook, e “descurtindo” os vídeos do canal no YouTube, com a intenção de derrubar ambos.

Quando abri a postagem original dela no Facebook, vi os comentários de centenas de pessoas, homens e mulheres, atacando-a de todas as formas possíveis. Quando questionados sobre o motivo de estarem fazendo aquilo, a resposta é “Não é porque ela é feminista, ou porque ela é gorda. É porque não gostamos do conteúdo dos vídeos”. Mas os comentários eram, em geral, xingamentos, ofensas contra feministas, ofensas contra gordas, ofensas contra lésbicas, ofensas contra homossexuais. Ofensas, ofensas, e mais ofensas. O que prova que a motivação é exatamente o que eles dizem não ser, e prova que eles são machistas, homofóbicos, gordofóbicos (E como eles odeiam qualquer termo que termine com “fóbico”!), entre outros.

Mas a questão não é essa. Homens machistas, privilegiados pelo patriarcalismo, não nos surpreendem agindo dessa forma. São mimados, infantis, como aquela criança que, quando começa a perder no jogo, derruba o tabuleiro e não deixa mais ninguém brincar. O que me surpreendeu, de verdade, foi a quantidade de mulheres agindo da mesma forma, atacando-a por ser feminista, por ser lésbica, por ser gorda, atacando-a de todas as formas, incapazes de enxergar que elas são exatamente iguais a nós.

Delas, eu fiquei com pena. São tão confiantes de que ficar ao lado do patriarcalismo, e agir conforme as regras do jogo dele, as tornam protegidas, superiores, iguais aos homens, que sequer questionam se é assim mesmo que funciona. Me lembram aqueles negros, escravos, que se tornavam capatazes. Puniam seus irmãos, ajudavam os brancos, seus donos, a manter os outros negros “na linha”. Com isso, se julgavam numa posição privilegiada, superior aos outros negros. Quase esqueciam que ainda eram escravos, e que, quando fosse conveniente ao branco, seriam tratados exatamente como todos os outros.

Para essas mulheres, eu tenho um recado:

Um dia, o patriarcalismo vai se voltar contra você. Não é uma suposição, é uma certeza. Porque isso vai acontecer. Na verdade, já aconteceu, você só ainda não percebeu. Ele é contra você. E se manifesta nas pequenas coisas do seu dia-a-dia. Naqueles pais que dizem que você precisa “cuidar” da casa porque é a única filha mulher. Naquele namorado que tenta ditar o que você pode vestir. Naqueles familiares que estão sempre cobrando de você um casamento, e filhos, sem se importar com a sua carreira. Naquele patrão que te paga um salário menor do que o dos seus colegas homens. Naquele cara que ameaça vazar suas fotos nuas se você não fizer o que ele quer. Naquele marido que não faz nenhuma tarefa doméstica e ainda te cobra se você não fizer. Naquele parceiro que te convence de que é sua obrigação fazer sexo com ele. Naquele sentimento de que você precisa ser mais magra, mais sarada, mais bonita, mais alguma coisa, para ser aceita pela sociedade. Até mesmo nesse sentimento de que está tudo bem, porque você já é tudo isso.

Você ainda não é capaz de perceber que o patriarcalismo não está ao seu lado, porque segue as regras. Mas, um dia, em algum momento da sua vida, você vai estar cansada demais para arrumar a casa, e vai ser castigada por isso; vai querer usar uma roupa que te deixa sexy, e será chamada de puta; vai querer focar na sua carreira profissional, sem pensar em marido e filhos, e vai ser chamada de titia, fracassada, mal amada; vai querer um salário igual aos dos seus colegas, ou melhor, e vai correr o risco de ser demitida; vai querer denunciar o cara que te ameaçou, e as pessoas vão dizer que a culpa é sua; não vai estar a fim de fazer sexo com o seu marido, e ele vai ameaçar te trair; vai engordar alguns quilinhos, ou emagrecer mais do que a sociedade considera aceitável, e será chamada de relaxada, gorda, vareta, etc… E aí, talvez, perceba que o patriarcalismo não se voltou contra você. Na verdade, ele nunca esteve ao seu lado.

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Quando isso acontecer, quando o patriarcalismo e o machismo mostrarem a sua verdadeira face, nós, feministas, vamos estar aqui. Mas não vamos julgá-la. Não vamos dizer “eu avisei”, não vamos dizer que “você mereceu, porque não acreditou em nós”. Não vamos fazer nada disso, porque sabemos exatamente o que você está passando. Sabemos como é estar no seu lugar, porque todas nós já estivemos aí.
Quando você acordar para a verdade, vamos estar de braços abertos para te receber, te ajudar, te confortar e, sempre que necessário, lutar ao seu lado.
E vamos dizer, com todo orgulho: Seja bem-vinda!

Porque você ainda não é capaz de enxergar, mas nós não somos inimigas, não somos rivais, somos irmãs, e precisamos ficar juntas.

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